De mãe para filha: o legado de uma empresária que atravessa gerações em Fortaleza

8 de maio de 2026 - 14:10 # # # # #

Há 44 anos, quando Fortaleza ainda concentrava grande parte do comércio no Centro da cidade e o empreendedorismo feminino enfrentava ainda mais desafios, Mazé Campos decidiu transformar a inquietação em coragem. Enquanto cuidava da filha recém-nascida, Roberta, percebeu que queria construir algo maior.

“Eu me vi lavando fralda e pensei: não é isso que eu quero, eu quero mais”, relembra.

Na época, o cenário era completamente diferente. Ainda não existiam grandes polos comerciais fora do Centro da cidade e Mazé começou vendendo peças dentro de casa, trazendo pequenas remessas de mercadorias do Rio de Janeiro.

“Cliente quer, a gente consegue. Fui pegando mercadoria em consignação, viajando para comprar e crescendo aos poucos. Foi muito esforço”, conta.

A ousadia faz parte da trajetória da empresária que ajudaria a construir a história do comércio cearense dentro de um shopping no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza. A tão sonhada loja física foi inaugurada junto com o centro comercial, atravessando gerações, crises econômicas e transformações do mercado até se tornar um verdadeiro legado familiar.

O crescimento veio rápido. Depois da primeira loja, vieram novas unidades, décadas de trabalho e uma relação cada vez mais forte com clientes e colaboradores. Paralelamente à atuação empresarial, Mazé também construiu uma trajetória de liderança no setor comercial cearense. Hoje, é uma das diretoras da CDL Fortaleza, sócia-fundadora da Associação dos Lojistas Femininas do Ceará (Alfe) e diretora do Instituto CDL.

Ao longo dos anos, o negócio se consolidou não apenas pelos produtos, mas pela relação criada com quem entrava na loja. Algumas funcionárias acompanham a empresa há mais de 30 anos.

“Realmente virou uma empresa familiar. As funcionárias já são integradas à nossa história”, afirma.

Tal mãe, tal filha

Agora, mais de quatro décadas depois, a empresa vive um novo capítulo: a sucessão entre mãe e filha.

Roberta Campos cresceu acompanhando a rotina da mãe, mas não imaginava inicialmente seguir no negócio da família. Formada em Administração e especialista em Marketing, ela conta que a aproximação aconteceu de forma natural, impulsionada pelas transformações do mercado e pelas novas demandas da empresa.

“Eu não pensava em ficar na loja, mas as mudanças foram muito rápidas, principalmente na questão da tecnologia, das mídias sociais e das novas exigências do mercado. Eu comecei a suprir coisas que ela não fazia. Houve essa simbiose. Eu vim complementar”, relata.

Enquanto Mazé seguia à frente das compras e do relacionamento próximo com as clientes, Roberta passou a assumir gradualmente a parte administrativa, financeira e estratégica da empresa. A divisão das funções aconteceu aos poucos, respeitando o perfil de cada uma.

“No início, foi difícil porque ela é muito centralizadora”, brinca Roberta. “Mas chegou um momento em que ela realmente abriu essa parte financeira e administrativa para mim.”

Hoje, Mazé continua presente diariamente na loja, figura conhecida e querida pelas clientes, enquanto a filha atua nos bastidores, conduzindo processos, planejamento e adaptação às novas ferramentas do mercado.

“As clientes gostam da opinião dela, as vendedoras querem ela aqui porque ela vende, ela acolhe. E eu fico na retaguarda, dando esse suporte que hoje é cada vez mais necessário”, afirma Roberta.

A admiração entre mãe e filha aparece também nos pequenos detalhes da convivência diária. Para Roberta, o maior aprendizado vem da forma como Mazé encara o trabalho e a vida.

“Ela é uma pessoa muito perseverante, muito positiva. Não tem tempo ruim para dona Mazé. Nas maiores dificuldades, ela está firme, aqui na loja. Isso é um exemplo para toda a equipe”, diz.

A força do empreendedorismo feminino

Histórias como a de Mazé e Roberta representam a força do empreendedorismo feminino no Ceará e mostram como empresas familiares ajudam a movimentar a economia, gerar empregos e atravessar gerações.

Para o presidente da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec), Eduardo Jereissati, trajetórias como essa reforçam a importância da continuidade empresarial e da formalização para o desenvolvimento econômico do estado.

“Quando uma empresa atravessa gerações, ela carrega muito mais do que resultados financeiros. Carrega valores, histórias de vida, empregos e contribuição para a economia cearense. Hoje, nosso estado conta com 421.330 sócias mulheres empreendendo e gerando emprego e renda. A Jucec tem orgulho de acompanhar jornadas como essa, que mostram a força da mulher empresária e a importância da sucessão empresarial para manter negócios vivos e fortes ao longo do tempo”, destaca.

Eduardo também ressalta o simbolismo de histórias lideradas por mulheres.

“O empreendedorismo feminino transforma realidades. E quando esse legado passa de mãe para filha, ele ganha ainda mais significado. São histórias que inspiram outras mulheres a acreditarem em seus projetos e construírem seus próprios caminhos”, completa.

No mês em que se celebra o Dia das Mães, a trajetória de Mazé e Roberta revela que alguns legados vão muito além dos negócios. São construídos diariamente, entre coragem, acolhimento e a vontade de continuar escrevendo, juntas, novos capítulos de uma mesma história.